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Movimento das mulheres de limpeza portuguesas no Canadá é legado para gerações de emigrantes – historiadora

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A historiadora Susana Miranda disse hoje à agência Lusa, que o movimento sindicalista na década de 70, de mulheres de limpeza portuguesas, “foram vitórias importantes num legado que ficou para outras gerações de emigrantes”. 

“Após o envelhecimento daquela geração das mulheres portuguesas empregadas de limpeza, este legado ficou como base para outros emigrantes, nomeadamente a sindicalização dos trabalhadores em prédios governamentais como o parlamento provincial do Ontário”, afirmou a investigadora do Projeto de História Luso-Canadiana.

O ‘Cleaners Action’ teve início na década de 70, em Toronto, foi um movimento sindical liderado por mulheres portuguesas, que trabalhavam em prédios na baixa da cidade, com o objetivo de melhorar as condições laborais.

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“Elas queriam mais direitos no trabalho, mais respeito, aumento de salário e pretendiam ser sindicalizadas. Foi muito importante naquela época porque não era muito comum muito ativismo pelas emigrantes, não só portuguesas, mas todas as mulheres no Canadá”, acrescentou a lusodescendente.

Filha de emigrantes do concelho da Lourinhã (distrito de Lisboa), Susana Miranda, formada em história pela Universidade de York, no norte de Toronto, teve a sua tese de doutoramento baseada na história das mulheres portuguesas de limpeza. 

Na ocasião, a maior parte dos serviços de limpeza em Toronto, eram assegurados por imigrantes de origem portuguesa, embora sem terem uma tradição sindical em Portugal, as mulheres uniram-se na luta por melhores condições laborais, incluindo o aumento do salário mínimo, que na altura era de 2,40 dólares canadianos por hora (1,67 euros).

A comunidade portuguesa no Canadá ainda “era recente” e as mulheres de limpeza “não tinham muita atenção dentro da sua própria comunidade”, havendo ainda “muita insensibilidade à participação de mulheres em manifestações”. 

A historiadora destacou ainda a primeira ação, conhecida por Wildcat, em 1974, executada pelas mulheres responsáveis pela limpeza noturna nas Torres do TD, que iniciaram uma greve ilegal, com a presença da polícia, após serem obrigadas a reutilizar sacos do lixo.

No ano seguinte, as trabalhadoras que operavam nos edifícios governamentais do parlamento provincial (Queens Park) decidiram criar um sindicato, com a empresa a cancelar o contrato de limpeza com o governo, como resposta ao movimento. 

Com o apoio da Casa de São Cristóvão, devido às limitações no inglês das trabalhadoras, com a ajuda de assistentes sociais, o movimento conseguiu chegar aos principais meios de comunicação social canadianos, o que com a pressão pública, foi possível ultrapassar a falta de condições laborais e precariedade que as mulheres estavam sujeitas.

Todo este movimento foi importante para as mulheres em geral “porque pretendiam respeito no trabalho”, mesmo sem qualificações, alta educação e ainda com um inglês muito limitado.

“Pretendiam ser tratadas com respeito e queriam salários mais altos, para ajudar as famílias nos primeiros anos no Canadá, porque o custo de vida era dispendioso. O salário das mulheres era bastante importante”, frisou a investigadora. 

Para a comunidade portuguesa evoluir no Canadá foi importante até para ser “respeitada como emigrante” e para a própria indústria foi importante “mantendo-se ainda nos dias de hoje as sindicalizações dos trabalhadores de limpeza nos prédios na baixa de Toronto”. 

“Ainda é uma indústria difícil porque os proprietários dos edifícios subcontratam os empregados de limpeza através de outras companhias, com o objetivo de pagaram salários baixos àquela classe operária”, lamentou.

No dia 19 de outubro, o artista português Alexandre Farto, mais conhecido por Vhils, inaugurou um mural em Toronto, ‘Arranhando a Superfície’, que ilustra rostos e figuras do movimento das empregadas de limpeza portuguesas. 

Na opinião da historiadora, este mural veio dar a conhecer, tanto à comunidade portuguesa no Canadá, como a Portugal, a “história destas mulheres, que foram fortes e lutaram pelos direitos no trabalho”.

O Projeto de História Luso-Canadiana, sediado na Universidade de York, é uma organização sem fins-lucrativos, fundada em 2008, com o objetivo de arquivar e divulgar a história luso-canadiana.

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