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Em Fátima falou-se do Luxemburgo, onde há “um nicho de trabalho para a nossa gente”

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Antes de oficialmente iniciada a chamada “Peregrinação dos Emigrantes”, em Fátima ouviu-se falar, em conferência de imprensa, da vida de tantos portugueses que vivem no Luxemburgo e que deixaram o seu país natal em busca de melhores condições de vida. Todavia, os olhos também têm de estar postos em quem escolhe Portugal para viver — e o fenómeno da exploração e tráfico humano não pode ficar esquecido.

“O Luxemburgo é um laboratório muito curioso ao nível da comunhão e da interculturalidade, porque 48% da população é estrangeira”, começou por dizer o padre Rui Pedro, que por lá trabalha com emigrantes portugueses, em conferência de imprensa no Santuário de Fátima.

Lembrando que o país tem “um alto índice de emigrantes, trabalhadores que o país chama e que também seduz pelas suas condições de vida e pelo trabalho que vai havendo”, o sacerdote explicou o que é apresentado a quem decide deixar a sua terra natal.

“Quem vive hoje no Luxemburgo pode constatar que é um estaleiro a céu aberto, há muitas obras públicas a serem feitas, estradas, novas infraestruturas, e aí temos de facto um nicho de trabalho para a nossa gente, porque grande parte está na construção civil, nos trabalhos públicos — isto os homens —; as senhoras preenchem o trabalho, em geral nas limpezas”, apontou.

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“Esta é a nossa gente, apesar de nos últimos anos também ter aumentado alguma emigração qualificada que, ao contrário dos nossos emigrantes sem qualificação, já vai com tudo preparado através da Internet. Sabem já enviar um currículo, alguns têm já trabalho”, disse.

O padre Rui Pedro, que se apresentou como missionário scalabriniano que aceitou “viver a vida vendo os sinais de Deus na vida dos emigrantes e dos refugiados”, referiu que vê “nesta gente portuguesa e na comunidade cabo-verdiana”, as que mais acompanha, “um sinal de muita esperança para a Igreja do Luxemburgo”.

“Procuramos conquistar espaço nas paróquias e nos movimentos, para que também nós possamos, não só aí, continuar o nosso caminho de fé e dar a educação cristã às crianças, com a catequese e com outras ocasiões de formação e também, devagarinho, progressivamente, integrando-os na sociedade”, refletiu.

“De vez em quando encontro no email da missão: ‘Quero emigrar para o Luxemburgo, pode ajudar-me?’. São pessoas a quem aqui [em Portugal] a vida não correu bem ou que a pandemia tem agravado a situação familiar e resta tentar a emigração”, revelou.

Neste sentido, o padre não tem dúvidas de que “no Luxemburgo a Igreja é muito acolhedora e tenta, de facto, abrir e criar ocasiões de formação e também de trabalho no concreto”.

Por outro lado, sacerdote alertou para a necessidade de olhar também para quem escolhe o nosso país como destino — e não apenas para quem vai para outra terra. “Portugal é um país transversal, onde temos emigração e imigração, e aquilo que nós reivindicamos para os nossos emigrantes não podemos esquecer para os imigrantes que estão aqui”, começou por dizer.

“Eu sou da região do Oeste e tenho visitado algumas paróquias rurais. Temos muitos imigrantes do Nepal, do Bangladesh, do Sri Lanka, a trabalhar nos nossos campos, na apanha da fruta e outras coisas. As paróquias também devem tornar-se sensíveis a esta realidade aqui em Portugal, porque às vezes reivindicamos coisas para os nossos emigrantes e não cedemos o mesmo aos imigrantes que nos procuram”, refletiu, recordando que “estes fluxos migratórios [atuais] não têm nada a ver com os anos 90”, uma vez que agora “não há uma partilha cultural, não são lusófonos, não são PALOP, são de facto culturas diferentes”.

Falando de migrantes, a questão do tráfico não poderia ficar de fora, já que tem sido um assunto que a pandemia veio trazer a descoberto, devido aos surtos existentes em várias explorações agrícolas pelo país.

“Em 2005, quando recebi o primeiro inquérito da OIM [Organização Internacional para as Migrações] sobre o tráfico humano em Portugal, havia poucos casos. Alguns anos mais tarde já havia alguns casos e também digo que foi a Igreja a primeira a denunciar”, afirmou o padre Rui Pedro.

“Falo de Beja e de Évora, onde em várias herdades foi a Cáritas diocesana que, pela primeira vez, começou a suspeitar que de facto havia exploração laboral e recordo bem que começaram a ter escolta policial, porque entraram num mundo de muito perigo”, lembra.

Contudo, acredita que esta prática tem vindo a crescer. “Não esperava — também venho cá só no verão — encontrar o fenómeno mais expandido como está neste momento no Oeste. Falo, por exemplo, na apanha da pera rocha, ao redor do Bombarral e de outras cidades, onde alguns padres colegas me disseram que na sua paróquia tem núcleos do Nepal, do Bangladesh. As pessoas não vêm assim ao deus-dará, haverá redes que os trazem”, atirou.

“Eu sou de uma terra piscatória e também nos nossos barcos há filipinos a trabalharem em traineiras portuguesas — e não só no porto de onde eu provenho, mas noutros. Seria uma grande ocasião de pormos o Evangelho em prática, defendendo os direitos destas pessoas que estão longe da família, como os nossos portugueses; que estão desamparados, como muitos dos nossos portugueses pelo mundo. Passa por aí também um testemunho muito grande de fidelidade ao Evangelho”, rematou.

A peregrinação internacional de agosto ao Santuário de Fátima, que integra a peregrinação nacional do migrante e do refugiado é presidida pelo arcebispo do Luxemburgo.

A peregrinação, considerada como a peregrinação dos emigrantes, começa às 21:30 com a recitação do terço, seguindo-se a procissão das velas e a celebração da palavra.

Na sexta-feira, às 09:00 é recitado o terço, realizando-se, uma hora mais tarde, a missa, que inclui uma palavra dirigida aos doentes. As celebrações terminam com a procissão do adeus.

O arcebispo do Luxemburgo, cardeal Jean-Claude Hollerich, é também o presidente Comissão das Conferências Episcopais da União Europeia e foi nomeado pelo Papa Francisco relator geral da 16.ª Assembleia Geral do Sínodo dos Bispos de 2023.

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