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ÁRVORES E PÁSSAROS – Fabiana Vieira

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“ Antes de existir a viagem – pelo menos, na minha vida -, havia livros de viagem. Livros que nos contavam que a vida era muito grande mas inteiramente abarcável. Repleto de destinações….foi a primeira ideia do que pensei que havia de ser a vida mais privilegiada de todas, a vida de um escritor: uma vida de infinita curiosidade e energia e de incontáveis entusiasmos. Ser um viajante, ser um escritor – na minha mente infantil, as duas coisas nasceram como uma só” (Questão de Ênfase, Susan Sontag).

Quando me deparei com esse parágrafo, escrito por uma das intelectuais a quem mais admiro, pensei que eu mesmo podia tê-lo escrito. Era como eu me sentia aos cinco ou seis anos, e depois, para sempre.

Mas fui além, e pensei que basicamente, as pessoas são divididas em dois tipos básicos: as pessoas árvores, e as pessoas pássaros. E o que isso teria a ver com esse contexto? Porque algo nos move, e fiquei pensando em quem tem nunca saiu de sua cidade natal, ou foi só até ali na esquina, mas para a pessoa está tudo bem. Nas pessoas que me falam que nunca se mudariam, que gostam da previsibilidade e do conforto das certezas.

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Dividir os seres humanos assim pode parecer restritivo, mas explica aspectos até mais complexos de cada personalidade. E claro que as coisas vão muito além, mas é um exercício interessante dividir as pessoas deste jeito, simples assim. Nenhum tipo é melhor do que outro, mais interessante, mais valioso: e ambos são necessários ara a engrenagem da vida.

As pessoas árvores são aquelas que buscam as garantias. São motivadas por palavras como segurança, estabilidade, conforto, certezas. São apegadas às tradições, aos rituais, aos mitos, porque isso tudo lhes traz a sensação de saber onde estão pisando – ou, em outras palavras, em que terra firme suas raízes estão se fincando.

São pessoas que provavelmente vão nascer, viver e morrer de um jeito bem parecido como de seus ancestrais. Ou que sofrerão imensamente se tiverem que mudar este roteiro. São as pessoas que fazem de tudo e mais um pouco para cumprir o “na saúde ou na doença”; e que passam uma boa parte da vida no mesmo emprego.

Elas também são o porto seguro das pessoas pássaros; aquele lugar e aquele abraço para onde os aventureiros sempre podem voltar. O cheiro da comida será sempre o mesmo; e a cama estará sempre arrumada com os lençóis mais cheirosos. As pessoas árvores odeiam as improvisações, não suportam projetos cheios de riscos, e têm dor de cabeça com apostas sem garantias. São geralmente pontuais, cumpridoras e preferem investir naquilo que tem uma chance maior de dar certo, ainda que o lucro seja menor. Isso não se refere só ao dinheiro, a aplicações financeiras.

A moça árvore vai escolher o rapaz mais ajustado ao gosto da família, e também às suas expectativas de segurança – não necessariamente charmoso, engraçado ou sedutor. Mas ele será bem aceito nos almoços de domingo, e já faz planos para a casa própria aos vinte e dois anos. O rapaz árvore vai se encantar com a moça da rua de baixo de sua casa, aquela mocinha delicada que ele conhece desde menina. E podem ter certeza: falo de uma realidade que vejo todos os dias, que é a mais comum entre a maioria dos mortais.

Susan Sontag estava, entretanto, falando era das pessoas que nasceram para ser pássaro. Essas, ainda um toco de gente, já acham o quintal pequeno demais, e depois a rua, o bairro, a cidade em que nasceram. Eu me lembro que aos dez, onze anos, eu às vezes viajava a São Paulo. E nunca vou esquecer de uma noite de férias num apartamento no Largo do Arouche, em que se descortinou para mim uma das paisagens que mais amo até hoje: a da São Paulo noturna, de luzes vibrantes. Eu tive certeza, aos onze anos, que era aquilo que eu queria para mim. E hoje tenho certeza sobre o tipo de pessoa que eu sou.

As pessoas pássaro pouco temem o risco; geralmente são atraídas por ele. Elas se jogam no precipício, e muitas vezes pagam preços bem altos; mas querem fazer as suas apostas.

São as que abandoam o emprego e saem com a mochila nas costas. São as que se casam três, quatro vezes. São as que migram, que acham seu país pequeno demais. As que iniciam uma nova carreira aos cinquenta. As que abandonam o patrimônio e se tornam monges no Tibete. São Francisco de Assis era pássaro; e isto me dá a alegria de estar em ótima companhia.

Agora, como psicóloga, conversando com muitas pessoas, eu posso facilmente decifrar tais categorias. Digo mais: o maior problema dos casamentos reside em quando pessoas pássaro e pessoas árvores se ligam na juventude, mas ao longo do tempo, a coisa não anda mais. É uma incompatibilidade sem fim. Se um quer viajar, o outro quer economizar para trocar de carro. Se um quer dançar na chuva desvairadamente, com uma taça de vinho na mão, o outro adora a observar os pingos pela janela, debaixo de um edredom.

E lembram da moça árvore? A moça pássaro, mais provavelmente se apaixonasse pelo vendedor de poesias. E depois por um intercambista chileno. Quem sabe, depois, pela melhor amiga? Até encontrar seu sossego em um rapaz desassossegado, que gosta de cinema mudo, e é obcecado por astronomia.

Minha prática profissional e minhas experiências pessoais têm me mostrado que a teoria de que os opostos se atraem, é uma grande canoa furada. É muito mais provável que pessoas com valores parecidos e interesses comuns dêem mais certo, em relacionamentos amorosos. Mas esse é um assunto complexo demais, e fica para uma outro momento.

O artista, o cientista, o inventor são os que temem menos os riscos, e se aventuram, dão o empurrão na engrenagem da vida. E as pessoas árvores mantêm a engrenagem viva e pulsante, cotidianamente.

A maioria de meus amigos é pássaro, percebi refletindo. Não por exclusão, mas por uma natural escolha inconsciente. Tendemos a nos identificar mais com os iguais. O que não signifique que eu não tenha muitas pessoas árvores no meu coração.

Não quero fazer parecer que essa divisão é estática, e que ambos os tipos de pessoas não se encontrem, às vezes, em se circunstâncias que tenham que flexibilizar seus impulsos; gente muito aventureira, muitas vezes se assenta candidamente numa casinha no campo, e se encontra feliz plantando verduras e alimentando galinhas – e essa passa a ser a sua aventura. Pessoas que adoram estabilidade, muito comumente se veem obrigadas a uma reinvenção, porque as regras do mundo delas também se transformam. Quantos não perderam um emprego aparentemente tão sólido e são obrigadas a encontrar novos atalhos, abrindo a própria empresa e se recriando? Somos seres plásticos e podemos nos amoldar: sermos um pouco árvores e um pouco pássaros.

Tampouco significa que pessoas pássaros são criativas e amorosas, e as árvores, práticas e assépticas. Há pessoas que adoram risco e aventura e são desapegadas de afetos; há quem adore a estabilidade e a segurança e seja o avô mais dedicado do mundo – são muitos. Não se trata de amar mais ou menos, mas do impulso para voar e correr riscos, ou para permanecer, investir longamente em projetos, lugares, amores.

Somos uma mescla de tudo um pouco, mas alguns aspectos preponderam em nós. Eu já reconheci em mim o gosto por recomeços, desafios e um cotidiano sem muita rotina. Mas no amor, prefiro a estabilidade e a sorte de uma relação tranquila, e isso implica em abrir mão de aventuras aqui e ali – não me fazem falta, porque neste quesito, acho bem mais saudável o conforto e a parceria, que só se constroem na convivência de anos. Não há também nada errado em que busque isto, um dia aqui e outro acolá; o que é importante é a pessoa compreender o que move a sua alma.

A minha, é a aventura da escrita, que me faz uma viajante contínua. O meu gosto por idiomas, o meu interesse por antropologia e culturas, o meu instinto de tentar entender o mundo do outro e mergulhar nele, me tornam um pássaro incansável, em busca de novos universos. Antes de ser tudo o que sou, antes até de aprender a escrever, eu já era escritora, dentro de meu mundinho interior. Cada um precisa  encontrar a sua força motora, que é o tal do propósito, sem o qual eu não acho que não dá para viver sem.

No mesmo ensaio, Susan Sontag finaliza com maestria e sintetiza o que sinto:

“Quando agora recordo como os livros de Halliburton foram importantes para mim no início da minha vida de leitora, percebo como a ideia de “viajante” impregnou, perfumou, incitou meu sonho nascente de tornar-me escritora. Quando admito para mim mesma que me interesso por tudo, o que estou dizendo senão que quero viajar para toda parte?”

E podem ter certeza, a viagem mais desafiadora é para dentro de nós.

 

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