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O fim do colonialismo: O império voltou a casa de avião

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Lisboa, 07 nov (Lusa) – Há 40 anos, milhares de portugueses fugiam da atribulada independência de Angola. Com exceção dos territórios asiáticos de Macau e Timor, o êxodo fechava cinco séculos de colonialismo e o império voltava ao ponto de partida, nas asas da TAP.

Numa semana, no outono de 1975, chegaram a Portugal mais de quatro mil pessoas. Decorria uma das maiores operações de resgate da história, com o regresso de centenas de milhares de colonos portugueses, fugidos da guerra civil que envolveu a independência de Angola, em 11 de novembro de 1975.

A “Ponte Aérea”, que utilizou, sobretudo, aviões da TAP nas viagens de Angola para Lisboa, permaneceu como o símbolo desse grande retorno, embora muitos, senão a maioria, dos que vinham a bordo nunca tivessem antes, posto os pés em Portugal.

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O êxodo dos colonos portugueses em África tinha começado um ano antes, com o abortar da revolta branca em Moçambique, em 07 de setembro de 1974.

Isabella Figueiredo, ainda uma menina de 12 anos, é uma das primeiras retornadas. “Eu fui muito maltratada pelos colegas e pela família. Diziam que o meu pai e a minha mãe eram ladrões, que tínhamos pretos para nos lavarem os pezinhos e os rabinhos e que merecíamos ter perdido tudo”, recordou, em 2010, quando lançou o seu livro “Caderno de Memórias Coloniais”.

A preparação para a fuga de Angola tinha começado no final de setembro e transformara Luanda numa “cidade de contentores”, como a descreveu o jornalista polaco Ryszard Kapuscinski.

“Toda a gente estava ocupada a construir caixotes. Montes de tábuas e contraplacado eram utilizados. O preço dos martelos e dos pregos disparou. As caixas eram o principal tema das conversas – como construí-las, qual o melhor material para as reforçar (…) No interior da Luanda de tijolos e cimento, uma nova cidade de madeira começava a surgir”, relatou Kapuscinski, no livro “Mais um Dia de Vida – Angola 1975”, que teve a primeira edição portuguesa em 1998.

Quase de um dia para o outro, há mais de meio milhão de portugueses nas ruas do país. Saídos do verão austral africano para o inverno do sul da Europa, não estão preparados para o que os aguarda. “Surpresa”, “choque”, “deceção” e “desânimo” são sentimentos que partilham, e, se Lisboa ainda parece atraente, o interior é “para esquecer”, por ser geralmente mais atrasado que muitas cidades angolanas.

Distribuídos pelo país, os retornados são colocados em hotéis e pensões, que os alojam e alimentam. A coordenar o processo, o Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais (IARN) torna-se no único interlocutor para milhares de pessoas que tinham deixado tudo para trás.

“Estavam lá retornados de todos os cantos do império, o império estava ali, naquela sala, um império cansado, a precisar de casa e de comida, um império derrotado e humilhado, um império de que ninguém queria saber”, escreveu Dulce Maria Cardoso, no romance “O Retorno”, de 2012.

Ainda falta mais de meio ano para a chegada do verão e das praias por que tanto anseiam. Mas os olhos habituam-se à pequenez de Portugal, a normalidade instala-se, os serviços públicos e as escolas enchem-se desses “novos portugueses”, em tudo diferentes dos que já cá estavam.

No entanto, a estranheza mantém-se, assim como o frio. No blogue O Marcoense, um jovem retornado recorda as fogueiras que fazia “nas paragens do autocarro, para travar o frio”, a caminho do Liceu de Penafiel. Com 15 anos, ido de Luanda para Esposende, Jorge Silva conhece em setembro um “Portugal triste a preto e branco”.

Passa frio, a casa onde habita tem ratos, mas depressa percebeu que a “simpática aldeia e os seus habitantes” o ajudaram a mitigar as saudades Angola e da família que lá deixou. Hoje, jornalista radicado há muitos anos em Macau, regressa nas férias àquela aldeia que considera como a sua casa.

Palco da partida para a expansão no século XIV e da chegada dos derradeiros fragmentos do império no século XX, Lisboa acompanha o ritmo da mudança. Surgem espaços de peregrinação obrigatória, como o Rossio, em Lisboa, cujos cafés assistem a reencontros de colonos e a ferozes disputas políticas e partidárias, em pleno processo revolucionário português e de guerra civil angolana.

“Um gajo identificado com a esquerda não podia passar ali”, recorda Manuel Costa, então empregado de comércio na Baixa. No Rossio, assistia-se um “panorama degradante com retornados de todas as cores e feitios, ocupados em trocas de dinheiro, sobretudo de dólares e marcos, em venda de diamantes, esmeraldas, safiras e rubis”, escreve Ricardo Saavedra no seu livro “O Puto”, de 2014.

E acrescenta: “E drogas, com predominância de suruma e liamba, além da pornografia mais abjeta e da politiquice mais sórdida”.

Alguns relatos de época associam a aglomeração dos retornados, na principal praça portuguesa, ao movimento dos “pieds noirs”, os ex-colonos franceses na Argélia. Mas isso era “só fumaça”, para citar uma frase emblemática da altura.

Jornais, como Vária-8, O Retornado, A Rua, A Barricada tentam empurrar o contingente ultramarino para a extrema-direita, o que não acontecerá.

“A extrema-direita sempre tentou controlar os retornados mas nunca o conseguiu”, disse à Lusa Riccardo Marchi, historiador e cientista político italiano que estuda o fenómeno da extrema-direita portuguesa.

“Os retornados não eram gente de extrema-direita, estavam mais preocupados em resolver os seus problemas mediatos do que com reflexões ideológicas”, defende o académico, que refere que os seus votos foram depois dispersos por PPD, CDS, AD, Ramalho Eanes (na primeira eleição presidencial, em 1976) e Soares Carneiro (em 1980). “E foi tudo”.

No dia 11 de novembro de 1975, Angola torna-se independente, mas Portugal demora a reconhecer o novo país. Dias depois, termina a ponte aérea, que arrancara seis meses antes, a 13 de maio.

No novo país, o infatigável jornalista Kapuscinski decide partir para a frente da batalha entre MPLA, UNITA e FNLA, e os seus aliados estrangeiros, pois não valia a pena continuar em Luanda. O comércio estava fechado e quase todos tinham abandonado a cidade – os portugueses, os polícias, os homens do lixo, até os cães vadios.

A notória ausência de portugueses é uma situação nova na paisagem de Luanda, cidade fundada no século XVI. Mas continuou a haver um grupo significativo de portugueses irredutíveis que permaneceram em Angola. Sozinhos, com escassos amigos e familiares, sem vizinhos conhecidos, ficaram angustiados, isolados e aborrecidos – mas ficaram.

Com 11 anos na altura, Elsa Costa lembra-se de ter acordado um dia “quase sozinha” em Moçâmedes, e da estranha “sensação de todos terem partido: amigos, família, colegas de escola”.

Os adultos “demonstravam medo nas conversas furtivas e convivia-se com tiroteios quase diariamente”. Elsa abandonou Angola em 1978 e vive no Brasil mas, sempre com “enormes saudades” da sua terra natal, agora batizada Namibe.

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