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Derrube de avião russo confirma preocupações sobre ações da Rússia na Síria

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Lisboa, 26 nov (Lusa) – A embaixadora da Turquia considerou em entrevista à Lusa que o derrube de um avião russo na terça-feira, acusado de violação do espaço aéreo turco, confirma as preocupações de Ancara sobre as ações unilaterais da Rússia na Síria.

“O que aconteceu na terça-feira confirma as preocupações que mantínhamos sobre as ações unilaterais da Rússia na Síria. Sabemos que a Rússia não está na Síria para combater as forças do Daesh [acrónimo árabe do grupo extremista Estado Islâmico, EI], os alvos que têm bombardeado não possuem presença do Daesh”, disse Ebru Barutçu Gökdenizler.

Na manhã de terça-feira, um F-16 turco abateu um avião militar russo junto à fronteira com a Síria na região de Hatay (sudeste) acusado de penetrar no espaço aéreo do país.

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Ao referir-se a um “incidente infeliz”, a representante diplomática da Turquia esclareceu que na manhã de terça-feira os radares turcos detetaram nessa região “dois aviões não-identificados”, com apenas um a optar por retroceder.

“Durante cinco minutos foram avisados dez vezes para não entrarem no espaço aéreo turco”, assegurou, antes de ser emitida a ordem de derrubar o SU-24 que “permanecia sem ser identificado”.

Na perspetiva da diplomata, o avião russo não respondeu aos avisos dos militares turcos, inseridas nas novas regras de conduta nesta área e em vigor desde 2012.

“Foram adotadas um ano após o início da crise na Síria, quando um dos nossos aviões foi abatido pelos sírios. Adotámos de seguida novas regras onde se refere que será abatido qualquer aparelho que viole o nosso espaço aéreo”, sustentou.

Na tarde de terça-feira decorreu uma reunião de emergência do Conselho da NATO em Bruxelas, onde a Turquia informou os países aliados sobre o incidente, incluindo registos de radar “que demonstram que um avião tinha penetrado em território turco”.

Ancara também enviou cartas ao Conselho de Segurança da ONU e ao presidente da Assembleia geral, onde explicita a sua versão dos acontecimentos.

Na esfera diplomática, foram ainda contactados os embaixadores em Ancara dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU (EUA, Rússia, China, França e Reino Unido) para um encontro no ministério onde foram fornecidas diversas informações.

No entanto, o embaixador da Rússia esteve ausente por se ter deslocado a Istambul onde deveria receber o seu ministro dos Negócios Estrangeiros Serguei Lavrov, de visita ao país vizinho para um encontro preparatório do Conselho de Cooperação de alto nível russo-turco previsto para 15 de dezembro.

Todavia, e devido ao incidente, o chefe da diplomacia do Kremlin cancelou a deslocação, destinada a abordar os temas da próxima reunião deste mecanismo de cooperação.

“Temos muito boas relações com a Rússia, somos vizinhos, existem importantes laços históricos, económicos e comerciais”, frisou Ebru Gökdenizler, antes de recordar que Moscovo “é hoje o segundo parceiro comercial da Turquia a seguir à Alemanha”.

“No período pós-Guerra Fria reforçámos as nossas relações com benefício mútuo”, acrescentou, antes de manifestar a convicção de que o incidente será ultrapassado.

“O nosso ministro dos Negócios Estrangeiros, Mevlut Çavusoglu, contactou na quarta-feira por telefone o seu homólogo russo [Serguei] Lavrov e concordaram que as informações disponíveis devem ser transmitidas por via diplomática e por canais militares, e que seria sensato promoveram uma reunião quando possível”, revelou.

No entanto, e apesar de sublinhar a importância em “manter abertos os canais de comunicação com a Rússia” e evitar uma “escalada da situação”, a embaixadora insistiu no que considera ser o “direito em defender” o espaço aéreo do seu país.

Neste âmbito, destacou com apreço a “solidariedade da NATO” e do seu secretário-geral, Jens Stoltenberg.

“Através de uma declaração exprimiu a solidariedade da NATO com a Turquia e o apoio à integridade territorial da Turquia, é muito importante para nós porque desde a adesão do país que a NATO tem sido um importante pilar da nossa política externa”.

Ainda numa referência à situação na vizinha Síria, e ao que definiu por “ações unilaterais” da Rússia, a embaixadora da Turquia reconheceu tratar-se de uma “situação muito perigosa”, também “reconhecida” pelo secretário-geral da Aliança.

“O seu plano [da Rússia] na Síria é diferente. Sabemos que apoiam o regime [do Presidente sírio Bashar] al-Assad. Mas a crise dos refugiados na Síria [mais dois milhões acolhidos na Turquia], a atual situação com a Rússia, e todos os perigos que emanam da Síria, demonstram que a única solução consiste em eliminar pela raiz as suas causas”, asseverou.

Ebru Gökdenizler voltou a recordar a posição do Governo islamita-conservador turco, ao pugnar “por uma transição democrática na Síria o mais rapidamente possível”, uma solução que deverá excluir a permanência no poder do Presidente sírio Bashar al-Assad.

“A Rússia e o Irão devem ser envolvidas no combate ao Daesh, mas não acredito que a situação possa ser resolvida sem abordar a raiz do problema, que é o regime sírio”, concluiu.

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