Início Culturas Música Beatriz da Conceição: Uma visita ao Solar da Alegria lançou a carreira...

Beatriz da Conceição: Uma visita ao Solar da Alegria lançou a carreira da fadista

1133
0

Redação, 26 nov (Lusa) – A fadista Beatriz da Conceição, que morreu hoje em Lisboa, aos 76 anos, tornou-se fadista por acaso, numa primeira visita à casa de fados de Márcia Condessa, em Lisboa, em 1959.

“Eu era costureira no Porto e vim, com uma amiga, conhecer o meio fadista de Lisboa; eu até pensava que a Márcia era uma condessa de verdade”, contou numa entrevista à Lusa.

O Solar da Alegria, de Márcia Condessa, na praça da Alegria, paredes-meias com o Hot Club de Portugal, era um espaço da tertúlia noctívaga lisboeta. Beatriz da Conceição foi convidada a cantar e imediatamente convidada para integrar o elenco.

Publicidade

O verso “vim para o fado e fiquei” aplica-se a Beatriz da Conceição, que deixou para sempre a profissão de costureira, e iniciou “uma das mais ímpares carreiras da cena fadista pela forma única com que se entrega em cada uma das interpretações”, como se lê na biografia publicada pela Fundação Amália Rodrigues, quando, em 2008, recebeu o Prémio carreira.

“É uma voz que não precisa de procurar nada, é tão maravilhosamente autêntica que toma conta de nós no primeiro instante da palavra”, escreveu o poeta Vasco de Lima Couto (1923-1980) sobre Beatriz da Conceição. De Lima Couto, Bia, como era carinhosamente tratada no meio fadista, cantou, entre outros, “Deste-me um beijo e vivi”.

O poeta escreveu ainda, “por tudo isto, quando a ouvi cantar um poema que a vida me fez sofrer, eu senti, com alegria, que já estava certo na alma do meu Povo”.

“Na sua voz, os versos de João Dias (‘Ovelha negra’), Artur Ribeiro (‘Eu nasci amanhã’), Ary dos Santos (‘Meu corpo’) ou Pedro Homem de Mello (‘Porque é que adeus me disseste’) ganham alma e uma dimensão maior”, segundo a biografia editada em 2008.

A sua estreia na revista, onde foi atração nacional, deu-se em 1963, no Teatro Monumental, em Lisboa, na produção “Férias em Lisboa”, que “causou uma enorme sensação”, segundo a mesma fonte.

Em 1968, o jornal A Voz de Portugal proclamou-a “divina”.

Beatriz da Conceição, que já tinha atuado nos territórios africanos, então sob administração portuguesa, tem, nesse mesmo ano, a sua primeira internacionalização, quando inaugurou a casa de fados Lisboa Antiga, em S. Paulo, no Brasil, tendo-se também apresentado no Rio de Janeiro.

Desde então somaram-se várias atuações no estrangeiro, nomeadamente nos Países Baixos, Bélgica, Estados Unidos, França, Japão, entre outros.

Em 1972, regressaria ao palco do Saldanha, o antigo Teatro Monumental, no elenco de “Prá frente Lisboa!”.

No Parque Mayer foi atração em revistas como “Adão e elas”, que também se apresentou no Porto, “Mini-saias”, “Sete colinas”, “Mulheres à vela” ou “Arroz de miúdas”, sempre no Teatro ABC.

Dos palcos da revista saíram êxitos como “Três santinhos populares”, “Mini fado”, “Lisboa da cor da ponte”, “John português” ou “Sou um fado desta idade”.

Em 1974 fez parte do elenco de “Uma no cravo, outra na ditadura”, no Teatro ABC

Beatriz da Conceição, a convite do maestro flamento Paul van Nevel, diretor e fundador do Huelgas Ensemble, atuou em vários festivais como o de Mon, na Catalunha (Espanha), ou integrada no projeto “Les larmes de Lisbonne” (“Lágrimas de Lisboa”), com António Rocha, com que atuou em Paris e Antuérpia, entre outras ciadades europeias.

O projeto “Les larmes de Lisbonne”/”Tears of Lisbon”, que combina fado, villancicos e música da Renascença, deu igualmente origem ao álbum do mesmo nome, com a participação de Beatriz da Conceição.

Paul van Nevel afirmou que a fadista se exprimia com “uma força contida”, e que a sua interpretação era “de uma tal tristeza emotiva, que conseguia imprimir poesia mesmo aos silêncios entre as palavras e versos”.

Com vários discos editados, segundo a biografia da fadista publicada pela Fundação Amália Rodrigues, Beatriz da Conceição distinguiu-se “na forma de estilar, criando uma maneira própria, fiel à tradição mas ‘sua’, logo sempre autêntica”.

Além do Solar da Alegria, Beatriz da Conceição atuou n’A Viela, Adega Machado, Adega Mesquita, Taverna do Embuçado, O Faia, Parreirinha de Alfama, Painel do Fado, Mesa dos Frades, A Petisqueira de Alcântara e no Senhor Vinho.

Entre diferentes prémios, em 2007, o Casino Estoril distinguiu-a pela excelência da sua carreira.

“As minhas emoções” foi o seu último álbum de estúdio publicado. Em outubro último, a discográfica Ovação editou em CD um álbum seu, com gravações da década de 1960, na série “Estrelas da música portuguesa”.

Artigo anteriorBélgica baixa alerta de ameaça de ataques em Bruxelas
Próximo artigoA Rússia tem armazenado mais de metade do total de minas terrestres existentes no mundo, ao concentrar 26,6 milhões de artefactos explosivos antipessoal e anticarro, indica hoje um relatório internacional.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui