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Primeira maestrina portuguesa divide-se entre o volante e a batuta em Valongo há 30 anos

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A batuta de uma banda de música de Alfena, em Valongo, pertence há mais de 30 anos interruptos a Maria Antonieta Moreira, a primeira maestrina portuguesa que “desbravou” nos palcos e não só “um terreno de homens”.

Tem 56 anos e é motorista de pesados. De manhã recolhe crianças para as levar de autocarro ao infantário. À noite ensina jovens e dirige os ensaios da banda local. Ao fim de semana o itinerário repete-se: a Banda Musical de S. Vicente de Alfena chega às atuações com Antonieta Moreira que troca o volante pela batuta para “dar música” a “toda a gente porque toda a gente gosta de música”.

“A diferença é que eu sou capaz de ouvir com ouvido crítico e quem não é da área gosta e acabou. Eu ouço música e imagino-a na pauta, mas toda a gente gosta”, referiu à agência Lusa a maestrina que conheceu este mundo quando, em miúda, à saída da catequese, ouviu “sons e harmonia” a sair de uma casa onde, mais tarde percebeu, se ensaiava.

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Entrou. Viu instrumentos e “um senhor que gesticulava muito”. Sem raízes musicais na família, tanto pediu aos pais que estes acabaram por a deixar esperar que um saxofone ficasse vago: “Não havia dinheiro para investir em instrumentos próprios”.

Quando ouviu o responsável do Centro Social e Paroquial de Alfena dizer “está na hora, agora tens de ser tu”, Antonieta Moreira tinha acabado de fazer um curso de regência, um mundo mais de homens já que a génese das bandas é sobretudo militar.

“Não me senti intimidada porque sabia que tinha qualidade e os músicos da banda conheciam-me. Não caí lá de paraquedas. Mas era um mundo masculino. Há 30 e poucos anos não havia senhoras na tropa, nem na política, não havia pilotos mulheres”, descreveu.

“Discriminação” nunca sentiu. Já “olhares surpresos” viu muitos. Mas a isso já estava habituada por ter começado a conduzir autocarros aos 24 anos.

“Quando as pessoas se apercebiam de que ia ao volante, agarravam-se aos bancos. Hoje já é natural. E nas bandas, sei que existem. Não são muitas. Num universo de 200 e tal, só meia dúzia são dirigidas por senhoras”, descreveu.

Ao serão ouve música clássica. Mozart, algumas obras de Beethoven e Rossini porque é “um brincalhão com as notas”. Já no carro prefere música comercial.

Mais habituada a dar as costas ao público, tendo à sua frente nunca menos de meia centena de músicos, Antonieta Moreira teve recentemente de enfrentar os holofotes quando a câmara de Valongo, distrito do Porto, a condecorou por altura do 75.º aniversário da Banda Musical de S. Vicente.

“Sou mais de trabalho do que de louvores, mas foi agradável. Significa reconhecimento. Mas agora é preciso esquecer a pompa e circunstância e continuar a trabalhar”, disse quem já deu aulas a pelo menos cerca de 80% dos músicos da banda.

Gostava que deixassem de olhar para as bandas filarmónicas como “um meio de cultura menor” porque, defendeu, o facto da maior parte das pessoas serem voluntárias “não é sinónimo de menor dedicação”.

“É preciso estudar muito. Não é um hobby de encostar a cana ao rio e esperar que o peixe morda”, defendeu, lembrando a importância das bandas e da música em meios pequenos.

Um dia, numa aldeia próxima de Freixo de Espada à Cinta, a S. Vicente de Alfena teve de pernoitar em casa de pessoas da terra. Os músicos foram escolhidos como se estivesse numa feira de escravos. “Eu quero aquele e aquele”, ouviu-se. E tudo porque os habitantes locais queriam agradecer o concerto com a entrega do melhor quarto e da mesa mais farta.

Maria Antonieta Moreira não pensa abandonar a regência já mas admite que “lá chegará o dia” porque uma certeza tem: “Não irei andar de bengala numa mão e batuta na outra”.

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