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Festa do Brinquedo em Alfena, Valongo, joga com a história industrial da região

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Na primeira Festa do Brinquedo realizada em Alfena, concelho de Valongo, assistiu-se hoje a um regresso de adultos à antiga escola primária em que outrora se entretinham com muitos dos jogos artesanais que agora são quase relíquias.

Entre piões, “pães-de-forma” Volkswagen em chapa afiada, gaivotas e bois de madeira ou diversos carrinhos de plástico injetado em moldes artesanais, centenas de crianças de várias escolas de Ermesinde e Alfena demonstraram menos interesse que os mais velhos em recordar os objetos que já foram um importante motor económico destas freguesias valonguenses.

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“O renascer deste tipo de matéria é também um reviver da nossa infância”, disse à Lusa José Moreira, sobrinho do fundador da fábrica de brinquedos alfenense Armindo Moreira Lopes e Filho, Ltda., encerrada em 1975, depois de 37 anos na atividade que incluía o fabrico de Renault 4 e pais Natal giratórios em folha de Flandres.

“É uma chapa de alumínio com 0,2 milímetros de espessura”, esclareceu o antigo serralheiro na fábrica da família, revelando que os brinquedos que agora coleciona e expõe lhe invocam “memórias boas, memórias más”.

José Moreira começou a trabalhar há 60 anos, quando tinha apenas cinco, “a vender brinquedos nas festas” em que se deparou com uma infância curta.

“Era muito doloroso, muito difícil. Eram noites e noites sem dormir para vender um brinquedo. Era quase impossível sobreviver. Mas fomos sobrevivendo e hoje é aliciante olhar para eles e brincar com uma coisa que na altura não podíamos. Hoje dou-me ao gosto de brincar com aquilo que não pude”, confidenciou.

Muitas das fábricas de brinquedos da região abriram entre as décadas de 1920 e 1930, vingando tanto através do consumo interno como pela exportação, em brinquedos de chapa reciclada que refletiam também a pobreza da época em que os rolos de folha de Flandres saíam caros.

“A produção destas carrinhas é feita à base de chapa de latas de sardinha e de tinta”, explicou Júlio Penela, 49 anos, representante da Pepe/Jato, fábrica de brinquedos alfenense fundada pelo avô em 1921.

A firma especializou-se cedo em “combis” e “carochas” VW, para além de modelos Jeep do exército, Renault 4 da polícia, táxis da Mercedes e Minis desportivos, que depois passaram a ser moldados em plástico num método que hoje demonstrou na Festa do Brinquedo.

“O fabrico passa por um processo de injeção de plástico em máquinas que têm um molde em duas partes – a da carroçaria e a do tejadilho -, que depois passam por um processo de colagem, de estampagem do chassis, de colocação das rodas e o respetivo eixo. Depois passa-se para a montagem dos para-choques, os acabamentos e pintura”, descreveu, enquanto colegas executavam o processo como se ouvissem instruções.

A empresa fundada pelo avô – José Augusto Júnior – ainda sobrevive, dedicada agora à injeção de plásticos técnicos, já bem longe dos tempos em que tinha mais de uma centena de empregados, resumindo-se hoje a seis.

“Chegámos a fazer muitas carrinhas Volkswagen para as autoestradas e bombeiros da Alemanha”, recorda o neto do fundador da Pepe/Jato, com um sentido de orgulho no trabalho de três gerações que teve de ser feito “por paixão, que senão não valia a pena”.

Lourenço Santos, 78 anos, entrou em 1953 para os quadros da Pepe-Jato onde fez “o melhor trabalho da vida”, um serviço que até o preparou para o labor numa empresa de injeção de moldes de plásticos na África do Sul, para onde emigrou “depois da guerra”.

“Trabalhei lá 14 anos, fazia cunhos e cortantes”, recordou, enquanto fitava os brinquedos alfenenses e lamentando a entrada “do brinquedo chinês, que começou a invadir o mercado e a vender tudo mais barato” e que pelos anos 1990 já tinham contribuído para o declínio da indústria local.

Esta primeira Festa do Brinquedo organizada pela câmara municipal de Valongo prolonga-se até domingo, dia 27, no edifício e arredores do Centro Cultural de Alfena.

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