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Arqueólogos investigam na Croácia tradição de acolhimento de refugiados

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Uma equipa internacional de arqueólogos está a desenvolver escavações em grutas que serviram de refúgio durante a Segunda Guerra Mundial, na Croácia, demonstrando uma tendência para o acolhimento aos refugiados na região dos Balcãs.

“Há um substrato que está por detrás de tudo isto: há um sentimento e um dever ético de hospitalidade que preside a todas estas situações, e aquilo que queremos fazer com o projeto é darmos visibilidade a esta tendência que já existe há muito tempo que é a hospitalidade e a solidariedade”, disse à agência Lusa o arqueólogo Rui Gomes Coelho, que faz parte da equipa de investigadores na Croácia.

Para o arqueólogo português, numa altura em que se verificam fluxos de refugiados no continente europeu, “são evidentes” as circunstâncias culturais tradicionalmente “embebidas” na cultura das comunidades rurais que acolhem as pessoas que precisam de ajuda, “da maneira que podem”.

Em concreto, as escavações arqueológicas decorrem numa gruta da região de Dreznica, República da Croácia, que serviu para acolher refugiados e onde funcionou um hospital de campanha durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), e proceder igualmente a escavações numa casa que foi a base do primeiro campo da resistência ‘partisan’, na região.

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“Este campo também foi um centro de preparação daquilo que seria o movimento ‘partisan’ [Resistência] que era integrado por muitas pessoas dos Balcãs que tinham participado na Guerra Civil Espanhola [1936-1939], nas Brigadas Internacionais”, explica à Lusa Rui Gomes Coelho.

“O nosso objetivo é estudar na gruta uma longa prática de acolhimento a refugiados já desde essa época [Segunda Guerra Mundial]. Queremos dar visibilidade às circunstâncias ligadas à hospitalidade e tomar tudo isto como uma lição para o presente”, sublinha.

A ocupação durante a Segunda Guerra Mundial – sobretudo pelas forças italianas do Eixo, composto com a Alemanha nazi – prolongou-se entre 1941 e 1945, mas os aspetos ligados à solidariedade em relação a pessoas em fuga são mais antigos naquele local.

Trata-se de uma “antiga zona de fronteira” com o antigo Império Otomano, estando muitas grutas da região associadas a histórias de refúgio de populações inteiras”.

Durante a investigação arqueológica, os especialistas descobriram que a gruta tem uma série de cruzes bizantinas cravadas na parede, tratando-se de um testemunho de que o local serviu de abrigo durante muito tempo, pelo menos desde a Idade Média, além de outros vestígios da Idade do Ferro.

Rui Gomes Coelho, investigador do Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa, é atualmente professor na Universidade de Durham, Reino Unido.

Além do arqueólogo português, fazem parte da equipa que está em Dreznica, a professora Ivona Grgurinovic, do Departamento de Etnologia e Antropologia Cultural da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Zagreb, e o arqueólogo Carlos Otero Vilariño, do Instituto de Ciências do Património do Conselho Superior de Investigações Científicas de Santiago de Compostela, Espanha, entre outros investigadores.

A par da “gruta-hospital”, esta equipa está a estudar uma zona próxima, na floresta, onde, numa série de barracões, que acolheram “meios de imprensa”, foram produzidos jornais e panfletos políticos durante a Segunda Guerra Mundial, que eram utilizados pela propaganda ‘partisan’.

“Nos anos 1940, nesta zona da floresta, foi também levada à cena uma peça de teatro, sobre folclore local. Foi descoberta recentemente pelos nossos colegas no arquivo e vai ser uma das componentes do projeto no próximo ano.: escavar o local porque já descobrimos vestígios de um ataque italiano, que destruiu as barracas, fazer uma exposição e recriar a mesma peça de teatro que foi feita aqui e representada aos doentes do hospital de campanha da resistência”, acrescentou Rui Gomes Coelho.

As escavações vão prolongar-se até ao final do mês e devem continuar no próximo ano.

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