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Do luto a nomeada para um Emmy, a mesa de Maria assenta em “raízes profundas”

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Depois do luto, foi nas suas “raízes profundas”, que vão de São Miguel a Trás-os-Montes, que Maria Lawton encontrou o alento que lhe garantiu uma nomeação para um Emmy com o seu programa de cozinha portuguesa.

“As minhas raízes são profundas e consigo traçar até sete gerações atrás, em Trás-os-Montes, de onde vem a minha família”, disse a cozinheira residente nos Estados Unidos à agência Lusa.

Foi nessas raízes que Maria Lawton encontrou conforto, e é isso que pretende partilhar com o livro de receitas “Azorean Cooking – From my table to yours” ou, mais recentemente, com o programa de televisão “Maria’s Portuguese Table”, transmitido para todos os Estados Unidos, através da estação pública norte-americana PBS, e lhe valeu uma nomeação para os Emmys.

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Maria tem também o blog “Azorean Greenbean” (‘feijão verde açoriano’, em tradução livre), alcunha que vem dos nomes que lhe chamavam na escola ou no seu canal de Youtube.

Aos 6 anos deixou, juntamente com os pais e irmãs, a freguesia do Rosário, na Lagoa, ilha de São Miguel, para se juntar ao resto da família materna que já tinha rumado aos Estados Unidos da América.

Foi em New Bedford, no estado de Massachusetts, que se instalou toda a família, que chegou a viver, durante largos anos, no mesmo prédio, contou Maria Lawton.

“Eram dois mundos diferentes. Tinha de aprender a língua, assimilar o país. Fora só falava inglês e tudo isso, mas assim que entrava em casa e a porta fechava estava em Portugal, nos Açores”, explicou a cozinheira.

Conta que foi com a avó que aprendeu a cozinhar, essencialmente doces, que fazia quando regressava da escola e subia ao andar onde viviam os avós.

“A minha mãe era uma cozinheira incrível, mas eu era a mais nova das três irmãs e não aprendi a cozinhar com ela. Ela só tinha espaço na cozinha para uma e eram sempre as minhas irmãs”, disse.

Aos 70 anos, a mãe de Maria descobriu que tinha cancro da mama, mas, nessa altura, a cozinha nunca pensou na comida.

“Nesse tempo, nunca me passou pela cabeça sentar-me com ela e pedir-lhe receitas. Só queria encher a casa com algum bom humor, garantir que ela estava bem”, afirmou.

Depois disso, teve pela frente três anos em que perdeu os pais e os avós maternos.

Maria enfrentou “um processo de luto muito complicado: Sempre que estava a tentar respirar, era outra pancada”, lamentou.

Em busca de algum alento, esta cozinheira sentia que “cozinhar era uma extensão do amor” da mãe e da avó e tentou recuperar as receitas da sua mãe.

Para isso, recorreu à ajuda das irmãs mais velhas, que eram quem tinha lugar na cozinha, mas sem sucesso: “A minha irmã que estava na cozinha não prestava atenção, estava só a cumprir ordens”.

“Eu senti que íamos perder tudo e que não tinha nada para passar às minhas filhas”, contou, explicando de onde partiu o ímpeto que a levou a contactar com várias pessoas de origem açoriana, incluindo alguns familiares que ainda vivem nos Açores, para encontrar as receitas que reuniu no livro.

“Foi a partir do luto e de um sentimento egoísta, porque queria passar aquilo às minhas filhas”, justificou.

Editado em 2014, o livro “foi crescendo e crescendo” e já vai na quarta impressão de uma terceira edição.

Na fase inicial, Maria contou com a ajuda de um amigo que tem uma gráfica para publicar o livro, mas depois chegou a uma editora devido ao “boca a boca”.

Foi também uma amiga que lhe arranjou uma reunião com uma responsável pela estação em Rhode Island, que manifestou interesse no projeto, mas avisou que a estação pública não poderia assumir os custos nem a logística de produção.

O acaso levou Maria ao mesmo café em que estava o grupo humorístico “The Portuguese Kids”, que se disponibilizaram para filmar o episódio piloto e que a levaram até a um produtor californiano, descendente de açorianos.

Os preços eram proibitivos, mas o produtor acabou por ceder à paixão que Maria empenha no projeto.

Depois de “ouvir muitos nãos”, e reunidos os apoios financeiros, Maria conseguiu levar a sua mesa portuguesa, que visitou as comunidades portuguesas em Massachusetts, Rhode Island e Califórnia, e explorou as particularidades culinárias de várias zonas de São Miguel.

Dos 13 episódios que lhe tinham sido comissionados, acabou por só conseguir financiar oito. Resta-lhe a vontade de, numa segunda temporada, chegar às restantes ilhas açorianas e espera conseguir acabar “onde tudo começou”, em Trás-os-Montes, de onde, em séculos remotos, a sua família materna partiu rumo a Santa Maria.

Pode agora ostentar uma nomeação para os Emmys, avançada pela secção de Boston/New England da Academia Nacional de Televisão, Artes e Ciências dos Estados Unidos.

A vitória nesta categoria ter-lhe-ia permitido chegar à cerimónia nacional, mas Maria considera que só a nomeação “já foi uma vitória” e que lhe traz “validação”.

O reconhecimento mostrou que este “feijão verde açoriano” está “ao mesmo nível que tantos outros que fazem isto há tantos anos”.

Sem saber se consegue financiar mais episódios, Maria congratula-se por ter chegado a um público que viu “a comida portuguesa de uma maneira diferente” e percebeu que “não basta adicionar linguiça ou chouriço para ser português”.

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