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Cardiologia de Santa Marta trata há 50 anos corações dos mais pequenos

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Cerca de 900 bebés nascem anualmente em Portugal com problemas cardíacos. Muitos são acompanhados no Hospital de Santa Marta, onde agora os doentes chegam a pesar pouco mais de meio quilograma, mas há meio século só se tratavam os mais velhos.

Discretamente situado numa rua paralela da movimentada Avenida da Liberdade, em Lisboa, funciona o primeiro Serviço de Cardiologia Pediátrica do país, que em 50 anos tratou milhares de crianças com doenças cardíacas, a maioria de origem congénita.

Várias histórias marcam a vida deste serviço, como um cateterismo a um bebé prematuro com 600 gramas realizado pela médica e diretora do Serviço de Cardiologia Pediátrica, Fátima Pinto.

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“Foi uma necessidade imperiosa na altura porque o doente tinha uma anomalia cardíaca e o cirurgião disponibilizou-se a operá-lo, mas queria que fosse demonstrado por cateterismo que essa anomalia existia”, recordou Fátima Pinto, em entrevista à agência Lusa.

A cardiologista pediátrica contou que a “única coisa” que fez foi “medir as pressões dentro das cavidades e demonstrar que existia a anomalia”. O bebé, o mais pequenino até agora a realizar este exame no Santa Marta, acabou por ser operado e foi um “caso de sucesso”.

Este é um dos muitos casos vividos no Serviço de Cardiologia Pediátrica, criado pela médica Fernanda Sampayo, no qual os pais depositam todas as esperanças quando descobrem que os filhos nasceram com uma malformação cardíaca.

A história desta unidade foi contada à Lusa por Fátima Pinto, que recordou o pioneirismo de Fernanda Sampayo ao criar, em 1969, a primeira consulta de cardiologia pediátrica no país, reconhecida dois anos depois como uma especialidade independente e que serviu de inspiração para o nascimento de outros serviços no país.

Fernanda Sampayo fez a sua formação em pediatria e em cardiologia pediátrica nos Estados Unidos, onde já existia esta especialidade. Em 1969, aceitou o convite para trabalhar no serviço de cardiologia do Hospital de Santa Marta.

A cardiologista, que foi a primeira presidente do Colégio de Cardiologia Pediátrica na Ordem dos Médicos, começou por criar uma consulta específica, que se realizava uma vez por semana, mas logo percebeu que precisava de um espaço para internar alguns doentes.

Muito rapidamente surgiu um espaço de internamento com algumas camas numa enfermaria de senhoras na cardiologia de adultos e, anos mais tarde, em 1985, foi criado um espaço autónomo com internamento pediátrico, que funciona até hoje no segundo andar do Hospital de Santa Marta.

Ali, fazem-se transplantes a bebés a partir de um ano, cateterismos a prematuros e todo o tipo de tratamentos para problemas cardíacos desde a vida pré-natal até aos 18 anos.

Para tornar o espaço mais acolhedor e aliviar o peso das máquinas e dos tubos que prendem as crianças à vida, mecenas pintaram as paredes dos corredores e das salas da unidade com desenhos coloridos que despertam a curiosidade dos mais pequenos.

Uma parede decorada com fotografias de meninos e meninas que ali foram tratados dá acesso a uma sala com brinquedos e jogos que distraem as crianças durante o tempo que estão internadas e que, às vezes, é muito longo. Esta situação faz com que a unidade se torne uma casa também para os pais.

Tudo isto graças ao trabalho iniciado por Fernanda Sampayo, que pôs sempre “o interesse do doente, da comunidade e da saúde pública à frente de tudo, procurou sempre a melhor resposta para estes doentes, fosse no estrangeiro ou em Portugal, e pugnou para que se formassem” no hospital equipas capazes de fazer o diagnóstico e o tratamento de cardiopatias congénitas, salientou.

Nos anos 70, apenas os mais velhos eram operados porque os equipamentos só permitiam intervencionar doentes com mais de 20 quilogramas, mas Fernanda Sampayo conseguiu que crianças fossem tratadas no estrangeiro. Foi no início dos anos 90 do século passado que se deu “a grande mudança” e a mortalidade cai de cerca de 40, 50% para menos de 5% atualmente.

Hoje, os cirurgiões conseguem operar “doentes de todos os tamanhos”, graças às suas capacidades técnicas, mas também ao “pioneirismo das empresas” que foram modificando as técnicas e as máquinas de ventilação e de apoio de circulação extracorporal.

Ao serviço chegam todo o tipo de anomalias, das mais simples às mais complexas, algumas das quais não tinham tratamento há 10 anos. “Hoje em dia conseguimos tratamento para tudo, nem que seja a transplantação cardíaca, que pode ser feita até em recém-nascidos”, disse Fátima Pinto.

Este ano, já foram feitos três transplantes naquela unidade.

No espaço de internamento são acolhidos cerca de 500 doentes por ano e na consulta são acompanhadas cerca de 7.000 crianças.

Questionada sobre quantos doentes foram assistidos no serviço desde a sua criação, Fátima Pinto afirmou: “a professora Fernando Sampayo fez um jantar em 1989 para comemorar o doente 30 mil, mas neste momento perdemos completamente a conta porque são muitos os doentes novos que recebemos por ano”.

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