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República Centro-Africana: ‘Ronaldos’ garantem segurança dos civis e estão na frente nas situações mais graves

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Os militares portugueses da 5.ª Força Nacional Destacada em missão na República Centro-Africana (RCA) são “admirados e temidos”, sendo conhecidos como ‘Ronaldos’ pelo contributo decisivo que dão em todo o país para a segurança dos civis nas situações mais graves.

Portugal integra a Missão Multidimensional Integrada das Nações Unidas para a Estabilização na República Centro-Africana (MINUSCA) com a 5.ª Força Nacional Destacada (FND), que tem a missão de Força de Reação Rápida, dando resposta a algumas das situações mais graves que ocorrem no país.

O trabalho dos militares portugueses no país africano é elogiado pelas diversas entidades, nacionais e internacionais, sendo considerados pelo comandante da MINUSCA, o general senegalês Balla Keita, como os seus ‘Ronaldos’.

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No terreno há cerca de quatro meses, os militares desta força, na sua maioria comandos, têm a sua base na capital, Bangui, junto ao aeroporto, mas já foram projetados duas vezes: primeiro para Bouca e mais recentemente para Bocaranga.

Para a região de Bocaranga, a cerca de 500 quilómetros da capital, a força partiu no final de maio e esteve 31 dias no terreno, procurando responder a um grupo armado, o 3R, que matou 54 civis.

“Fomos com a missão de mostrar a presença da MINUSCA e numa segunda fase expulsar o grupo armado de três aldeias onde ocorreram os ataques que causaram 54 mortos. O grupo armado saiu das três aldeias e regressou ao local onde pode estar. As nossas tarefas são para proteger civis e tudo o que desenvolvemos tem essa finalidade”, disse o major Luís Pereira, segundo comandante da quinta Força Nacional Destacada.

Luís Pereira destacou as dificuldades de deslocação no terreno, em especial devido às estradas inexistentes ou em mau estado, o que obrigou a força a demorar três dias na deslocação, referindo também que as chuvas torrenciais foram outro dos obstáculos a ultrapassar.

O segundo comandante disse ainda que muitos dos militares estão em missão na RCA pela segunda vez e que nesta altura, a cerca de dois meses de regressarem a Portugal, o desgaste já se faz sentir, mas garante que o empenho e motivação são totais.

O capitão Pestana Santos é o comandante da unidade de manobra da 5.ª FND da MINUSCA e também destacou as condições climatéricas adversas e as dificuldades de mobilidade, mas lembrou o contributo dado pelos militares portugueses na RCA.

“Todos sentimos que somos uma grande força e que dá o seu contributo de forma vincada. Já existe um histórico das restantes Forças Nacionais Destacadas que aqui estiveram no teatro e somos temidos e admirados. Temos muita responsabilidade em fazer as coisas com profissionalismo e planeamento, para a salvaguarda das populações civis”, frisou.

O madeirense Pestana Santos, natural de Câmara de Lobos, explica que apesar de todo o aprontamento, existem muitas questões que são diferentes no teatro de operações e que é preciso responder.

“Na chegada ao teatro existem muitas coisas que faltam e isso tem de ser avaliado diariamente. Vão surgir coisas que não contávamos, mas temos de gerir, para que o potencial da força esteja sempre num nível máximo. É para isso que cá estamos”, defendeu, enquanto mostra o equipamento utilizado pelos militares em missão, que pesa mais de 20 quilogramas.

O comandante da unidade explica ainda que as populações agradecem o trabalho dos portugueses e não gostam quando estes abandonam alguma região do país, num sinal de reconhecimento.

O major Luís Gomes é oficial de ligação da força e costuma ficar na retaguarda, mas a sua missão é de vital importância.

“Aqui (Bangui) também se esteve em Bocaranga. Eu sou oficial de ligações à MINUSCA e sou a ponte do comando da força para as células e para a MINUSCA. Existem problemas, a nível logístico ou operacional, que é preciso resolver, e isso é o que eu faço”, frisou.

Luís Gomes explica que a força portuguesa é “bem-vista, temida e uma referência” na RCA, confessando que sofre muito ao estar longe dos outros militares.

“Posso dizer que sofro mais na retaguarda. Tivemos situações em que a força esteve em projeções, tiveram ações de limpeza de aldeias para combater um grupo armado e aqui sofremos a ouvir no radio que uma ação a começar e a companhia a avançar”, disse.

Na força portuguesa existe também uma equipa médica, que acompanha as manobras no terreno, seja na base ou em projeções.

“É uma realidade diferente, pelas condições do teatro e do país e também pelas funções, onde para além da atividade assistencial, também temos uma vertente operacional. A primeira grande dificuldade passa pelo planeamento atempado. No caso de uma projeção, temos de levar os equipamentos e fármacos para montar uma enfermaria de campanha para um mês, porque depois é difícil abastecer”, explica a tenente médica Diana Vila Chã.

Para Diana Vila Chã, o planeamento e a capacidade de antecipar os problemas são essenciais, referindo que, para além da assistência mais normal neste tipo de missões, em que podem surgir ferimentos ou doenças, é também necessário saber líder com “possíveis situações imprevisíveis”, como a “picada de um escorpião ou mordida de uma cobra”.

A força está agora numa fase chamada de “regeneração”, depois do período em Bocaranga, mas pronta para sair para o terreno a qualquer momento.

A RCA caiu no caos e na violência em 2013, depois do derrube do ex-Presidente François Bozizé por grupos armados juntos na Séléka, o que suscitou a oposição de outras milícias, agrupadas sob a designação anti-Balaka.

Portugal está presente na RCA desde o início de 2017, no quadro da MINUSCA e a 5.ª FND, que tem a função de Força de Reação Rápida, integra 180 militares do Exército, na sua maioria elementos dos Comandos (22 oficiais, 44 sargentos e 114 praças, das quais nove são mulheres), e três da Força Aérea.

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