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Celebrações católicas no estrangeiro marcam reencontro de portugueses e aproximação às comunidades de acolhimento

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As comemorações católicas de 13 de Maio são vistas, por emigrantes portugueses, como uma celebração religiosa e uma oportunidade para um encontro das comunidades, mas também um momento de aproximação às sociedades de acolhimento.

Na Venezuela, as festividades em honra da Virgem de Fátima reúnem membros da comunidade lusa e venezuelanos católicos, um pouco por todo o país. Depois de uma missa e de uma procissão, centenas de pessoas concentram-se num arraial onde, apesar da crise que afeta o país, não faltam a espetada de carne ou o bolo do caco – pratos típicos da Madeira, origem da maioria dos emigrantes na Venezuela -, bebidas e doces dos dois países.

As comemorações começam em maio – quando, em 1917, três crianças afirmaram ter visto uma “aparição” da Virgem Maria – e prolongam-se até outubro (última “aparição”) e são também motivo de celebração em todas as igrejas católicas do país, incluindo aquelas onde a presença de portugueses não é significativa.

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Para trás ficaram as grandes procissões que se faziam na sede da Missão Católica Portuguesa de Caracas (em San Bernardino), em que os portugueses “tomavam” a autoestrada, levando nos ombros o andor com a imagem de Nossa Senhora de Fátima, enquanto em coro entoavam cânticos religiosos.

Hoje, por questões de segurança, esta procissão ficou reduzida a apenas o adro da Ermita de Nossa Senhora de Fátima (sede da Missão Católica Portuguesa de Caracas), separado por um muro e uma grade daquela autoestrada.

Em Macau, a celebração do 13 de maio decorre ao longo de mais de uma semana, marcada por missas em português e em chinês e uma peregrinação.

“A maior presença da comunidade chinesa nas celebrações é já uma nota de há algum tempo. (…) É visível uma crescente internacionalização do 13 de maio e de Nossa Senhora de Fátima em termos de evangelização e da própria fé. Em termos globais nota-se o crescimento da presença da comunidade filipina”, comentou à Lusa o padre jesuíta Luís Sequeira, que está em Macau há quase 40 anos e é responsável pela organização do 13 de maio no território há 27 anos.

Regista-se “cada vez mais uma maior participação dos colégios e do povo, seja de Macau, Hong Kong, interior da China, Filipinas, Indonésia: e a participação pode ultrapassar as cerca de três mil pessoas”, disse.

O padre católico considerou que a devoção a Nossa Senhora de Fátima “ultrapassa Portugal”.

“É um símbolo de paz no mundo. O significado para o mundo é a mensagem da conversão da humanidade a Deus, através dos pastorinhos, com a sua própria História. Fátima e Portugal representam a origem, mas como qualquer verdadeira devoção atravessa as fronteiras”.

Macau, disse, “em termos cristãos tem esta tríplice dimensão: fundamentalmente chinesa, agora; a portuguesa, sempre, tradicionalmente; e a filipina que é recente, datada dos últimos dez, vinte anos”.

Em França, as celebrações marianas também ultrapassam fronteiras e atraem portugueses e lusodescendentes da Suíça, Alemanha ou Luxemburgo, mas também franceses – é o caso das festas em honra de Nossa Senhora de Fátima em Mont Roland, na região de Jura (leste do país), que decorrem este fim de semana e que reúnem entre 10 a 15 mil pessoas.

“Para além das celebrações religiosas, temos uma parte festiva em que há concertinas, folclore e restaurantes para comer”, afirmou Arménia Pereira, uma das organizadoras do evento, que se realiza há 52 anos no santuário religioso de Mont Roland, onde há também uma capelinha dedicada à Virgem de Fátima.

“A religião é sempre um fator de união, a par das várias associações portuguesas aqui em França. Há uma certa religiosidade mais popular, muito típica portuguesa que circula à volta da devoção mariana que até pode prejudicar a sua dimensão mais teológica, mas a sinceridade e naturalidade das pessoas é uma grande riqueza”, afirmou à Lusa o padre Leandro Garcês, que lidera a paróquia da Igreja do Sagrado Coração de Jesus, em Gentilly, junto a Paris.

Para além da igreja de Gentilly, o outro grande polo da comunidade católica portuguesa em Paris é o Santuário de Nossa Senhora de Fátima, em Porte de Lilás, contando cada uma das igrejas com afluência dominical de cerca de 700 pessoas. A igreja em Gentilly tem mesmo cerca de 700 crianças nos diferentes níveis de catequese. É também nestas duas igrejas, dependentes diretamente da Igreja em Portugal, que se concentram as duas maiores celebrações do 13 de maio, com missa e uma pequena procissão das velas.

No entanto, este ano será diferente em Gentilly. Com a igreja a precisar de obras, a recém-criada Fundação do Fiel Amigo O Bacalhau, que junta vários empresários portugueses e luso-descendentes, decidiu unir esforços à paróquia para pintar o interior do edifício que data de 1936 e que foi entregue à comunidade no final dos anos 1970.

A empreitada envolve a doação de mais de 5 toneladas de tinta e andaimes para aceder a uma torre com 36 metros de altura. Segundo o chanceler desta fundação, estas obras mostram o papel da religião na comunidade: “Eu sei, porque conheço bem a comunidade portuguesa, que a religião é muito importante. Em qualquer sítio e em qualquer associação. A Igreja é essencial na nossa cultura”, afirmou Cândido Faria, empresário e chanceler da Fundação do Fiel Amigo O Bacalhau.

Na comunidade portuguesa de Artesia, a cerca de 50 quilómetros de Los Angeles, a festa de Nossa Senhora de Fátima começou a 03 de maio, com missas e terços diários, visita aos doentes e confissões. O ponto alto da celebração deste ano ocorre hoje, quando as ruas forem fechadas para a procissão entre a igreja da Sagrada Família e o D.E.S Portuguese Hall, algo que não é comum na igreja católica dos Estados Unidos.

“Parar-se o trânsito nas ruas e termos uma procissão de centenas de pessoas ao longo da rua é uma coisa rara”, disse à Lusa o padre Luís Proença, que presidirá à celebração em conjunto com o padre Domingos Machado. “Aquilo que é visto como normal em Portugal, na cultura americana não o é”.

A festa no salão português será seguida da atuação de bandas filarmónicas e de uma refeição comunitária, servida gratuitamente, que incluirá as “sopas” (pão ensopado na água da carne) e massa sovada. É “mais uma tradição muito única das comunidades”, considerou o padre Luís Proença, tornada possível por causa dos donativos que foram recolhidos em prol da festa.

“Há aqui uma dimensão interessante, de uma comunidade que está muito identificada com uma cultura portuguesa e açoriana ligada às tradições religiosas”, explicou o sacerdote.

Isadora Anselmo, presidente da comissão da festa deste ano, falou de um sentimento semelhante. “A comunidade portuguesa da Artesia é muito devota a Nossa Senhora de Fátima e ao Espírito Santo”, afirmou, referindo que as celebrações unem pessoas que durante o resto do ano estão mais ocupadas com o trabalho.

Natural da ilha Terceira, Isadora Anselmo explicou como a festa é também uma referência sentimental. “Toca-me porque me faz lembrar a minha terra. Quando eu era pequenina, ia sempre nas procissões”.

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