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Cabo Verde: No Tarrafal espera-se pelo pescador que “Deus fez regressar” com vida

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A história do pescador cabo-verdiano resgatado depois de 47 dias à deriva no Atlãntico, é o assunto de todas as conversas no Tarrafal, onde amigos e familiares acreditam que audácia do pescador foi premiada com um milagre.

Juvenal Ferreira Mendes, 52 anos, natural de Chão Bom, município do Tarrafal, na ilha cabo-verdiana de Santiago, desapareceu ao largo da ilha da Boavista no passado dia 03 de outubro.

Depois de 47 dias à deriva no oceano Atlântico foi resgatado a 18 de novembro por um cargueiro brasileiro com bandeira libanesa e desembarcou nesta quinta-feira no porto de Santos, no Brasil.

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Depois de ter visto passar 15 navios sem conseguir que nenhum o detetasse, mal pôs o pé no convés do cargueiro “Ouro do Brasil” a primeira preocupação foi telefonar para casa, segundo contou à agência Lusa, a mulher Rosalina Marques Tavares.

“Estava em casa de um vizinho, quando recebi um telefonema. Nem percebi bem de onde era, só percebi que o Juvenal estava bem e ia falar. Não conseguia parar de chorar. Percebi que tinha aparecido, tinha sido resgatado por um barco grande. Não disse quando foi resgatado, nem para onde ia”, contou Rosalina, que saiu disparada para casa para contar aos três filhos que o pai estava vivo.

Só na quinta-feira ficaria a saber pela comunicação social que o marido estava no Brasil.

Mais de mês e meio sem notícias, Rosalina tentou manter a esperança de que o marido, com quem está há 25 anos, apareceria com vida, mas acabaria por ceder ao desânimo.

“Esperamos, esperamos e sempre tive muita fé que ele ia aparecer, mas depois de tanto tempo fiquei desanimada. Acordava todos os dias a chorar, desanimada”, conta agora mais aliviada por saber que Juvenal está de regresso a casa.

A chegada ao aeroporto da Praia está prevista para hoje à noite, mas depois de dias de sofrimento e incerteza Rosalina não tem coragem de fazer os 70 quilómetros que separam Chão Bom da capital para ir receber o marido.

“Não sei se vou ao aeroporto. O meu filho é que vai porque não me tenho sentido bem. Todos me dizem para ir, mas tenho receio de não aguentar e desatar a chorar”, disse, sublinhando que depois de mais de 50 dias já tinha “perdido a esperança de voltar a ver o Juvenal com vida”.

Conta que, como habitualmente, Juvenal saiu da Boavista num domingo e que avisou que chegaria nesse mesmo dia ou na segunda-feira a Santiago, mas na quarta- feira ainda não tinha regressado. Na quinta-feira foi dado o alerta à capitania da Praia, que depois de dois dias de buscas, declarou que o pescador não se encontrava no mar de Cabo Verde.

“Tive muito medo que lhe tivesse acontecido alguma coisa e estou muito contente porque ele apareceu. Deus é grande!”, acrescentou.

O barco, um bote com cerca de nove metros e uma pequena cabine, que permitia ao pescador dormir e cozinhar, perdeu-se, e agora é tempo de começar de novo para este casal – ele pescador e ela peixeira – que vivem do mar.

“Perdeu-se tudo, o barco, o motor? ao todo são mil e tal contos (cerca de nove mil euros) perdidos”, disse.

“Mas o importante é que ele apareceu e agora vamos trabalhar para tentar arranjar outro barco”, acrescentou.

Entre os pescadores do Tarrafal, há dias que circulavam rumores de que Juvenal tinha conseguido sobreviver à tempestade, à fome e há sede, durante os 47 dias que esteve à deriva no Atlântico, mas a notícia da chegada do pescador ao Brasil veio dar aos familiares e amigos a certeza do seu regresso.

Entre a comunidade de cerca de 200 pescadores, Juvenal era conhecido pela audácia com que enfrentava o mar em saídas para pescar cada vez mais longe e quase sempre sozinho.

“É um pescador conhecido e muito amigo de todos aqui da comunidade”, disse à agência Lusa Amaro Santos Rodrigues, pescador “de fim de semana” e antigo presidente da Associação de Pescadores e Peixeiras do Tarrafal, adiantando que o aparecimento do pescador são e salvo é motivo de alegria para toda a comunidade.

“Estamos muito satisfeitos e esperamos com muita ansiedade o regresso dele”, disse.

Adiantou que depois de tantos dias desaparecido, já quase ninguém acreditava no seu regresso, embora restasse ainda uma “réstia de esperança” por causa da sua grande experiência no mar.

“Havia entre nós uma pequena esperança porque o barco dele era grande e ele sempre levava para o mar muita comida e muita água. Fazia sempre pescas longas. Ia num dia e regressava sempre dois ou três dias depois”, contou.

Para Amaro Rodrigues agora é tempo de festejar o regresso do pescador porque não é todos os dias que alguém passa pelo que Juvenal passou e sobrevive para contar a história.

“Deus fez regressar um homem que praticamente toda a gente pensava que estava sem vida”, disse.

O desaparecimento de pescadores não é inédito em Cabo Verde, tão pouco o seu aparecimento após vários dias ou meses e em outros países, mas no Tarrafal não há memória de uma história assim.

Devido a escassez de peixe e ao número crescente de pescadores, na comunidade Tarrafal são cada vez mais aqueles que, contrariando as regras, arriscam ir ao mar sozinhos, percorrendo grandes distâncias em pequenas embarcações.

“Os lugares de pesca são muito longe e os pescadores põem cada vez mais as suas vidas em risco porque têm que encontrar algum sítio para fazer este tipo de pesca e vão pescar em outras ilhas”, disse à Lusa Emanuel Silva, representante da Associação de Pescadores e Peixeiras do Tarrafal.

Esse foi o principal problema de Juvenal, considera Emanuel Silva, adiantando que se ele estivesse acompanhado teria conseguido fazer alguma coisa quando foi apanhado pela tempestade no regresso da ilha da Boavista.

Segundo o responsável da associação, na comunidade há pelo menos 15 embarcações em que os pescadores vão ao mar sozinhos.

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