Início Mundo Timor 40 anos/Timor-Leste: Os últimos dos ‘rastas’ na vanguarda artística

40 anos/Timor-Leste: Os últimos dos ‘rastas’ na vanguarda artística

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Ativista artístico, criador, fã de Dalí e um dos pintores mais procurados da atualidade em Timor-Leste, Alfeo não acompanhou muitos dos seus contemporâneos, hoje funcionários na Presidência ou no Governo, e por isso não cortou as ‘rastas’.

É um dos poucos que não o fez entre os que há uma década se viam, em Díli, em movimentos artísticos, políticos ou intelectuais emergentes e que hoje estão quase irreconhecíveis, sem os cabelos compridos, mais ‘iguais’ aos demais.

“Quando se entra no sistema é mais difícil. Preenches uma cadeira vazia que te dão. E é difícil ter poder para mudar as coisas. As regras estão todas escritas”, desabafa.

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Outro é Edson Caminha, viola baixo nos Galaxy (um dos grupos mais famosos dos últimos anos) a quem o chapéu nas cores do ‘reggae’ mal tapa as rastas que também sobreviveram.

“Nunca deixamos de aprender, sobre a música, sobre os ritmos. Antes tocávamos metal e rock. Mas experimentamos tudo. A música para mim é tudo. Nunca se chega ao destino, continua-se a chegar”, disse Edson.

“Agora tocamos mais o ritmo ‘reggae’. É uma grande influência para mim. A ideia foi ter uma banda timorense a criar um novo som ‘reggae’. Um ritmo ‘soft’, ‘mellow’ e que nos leva a algum lado. Os ritmos que criamos levam-nos a sítios que as pessoas nem sequer esperam”, explica.

Duas conversas com a Agência Lusa com a mesma tonalidade: a expressão individual na arte timorense, ecos de projetos coletivos mas que hoje procuram vingar a solo.

Os dois conheceram-se no primeiro grande projeto coletivo de arte pós-independência em Timor-Leste: a Arte Moris – escola, espaço de criação, galeria, museu e comunidade.

“Em Timor não temos escolas de arte e as coisas acontecem na maior parte das vezes porque os artistas querem contar coisas. Para mim, o que sinto, preciso de o contar e talvez alguém precise de o ouvir”, explica Alfea.

Hoje o Arte Moris está muito mais enfraquecido e os ‘alunos’ mais velhos estão agora noutros percursos.

“As pessoas ficam mais velhas. Altura de criar família. Mais de 10 anos como voluntário é se calhar demasiado. As pessoas precisam de dinheiro para viver, pagar a renda e tomar conta da família”, explica.

“Perdemos muitas pessoas boas, que tinham vontade de ensinar grátis. Ainda mais triste, tiveram que ir fazer outras coisas, não o que gostavam. O sistema não ajuda. As pessoas na escola todos estudam as mesmas coisas, matemática, biologia e pensam que vão acabar num escritório. Mas em Timor já não sobram assim muitos escritórios. E todos os anos graduam-se milhares de pessoas. Para ir para onde?”, questiona.

A sua pintura, já bem cotada, é dominada por rostos, “caras que contam histórias” e que são mais do que um retrato que Alfeo usa porque “os humanos criam regras, mas depois essas regras não reconhecem a importância da componente humana”.

Mostra-se pouco claro sobre se deveria haver mais apoio do Governo até porque essa ajuda não garante, necessariamente, mais êxito, ou pelo menos nos modelos atuais.

“Temos um Ministério de arte e cultura e por isso deveríamos fazer algo. Esse ministério existe porque há artistas, criadores de arte. É uma das razões porque existe. Se não o fizer é corrupção legal: ficam sentados todo o dia sem fazer nada. E nesse caso é melhor parar com isso e usar esse dinheiro para fazer estradas ou outras coisas necessárias”, afirma.

Edson também se refere à dimensão política do seu trabalho, quer na pintura quer na música onde hoje mais concentra o que diz ser a aprendizagem constante.

“As mudanças não têm a ver com o ano ou a idade mas com as vivências de cada um, comparar coisas do passado e apostar em coisas novas. O passado inspirou-nos a movimentar a nossa mente e a pensar sobre o futuro”, disse.

“A política pode estar em tudo. Agora tocamos reggae e agora falamos disso mas toda a musica é uma forma de expressão politica. Seja que estilo for. É tudo sobre expressão. O ritmo é tudo. Podemos expressar o que pensamos, a nossa mensagem sobre política, sociedade, tudo. Com qualquer ritmo”, explica.

Também sente saudades da comunidade Arte Moris ainda que insista, o conceito de comunidade é orgânico.

“É tudo sobre o que sentimos. Se ainda nos sentimos como uma comunidade fazemo-lo como comunidade. Mas isso não acontece sempre. A comunidade não é um fim em si mesmo”, explicou.

“A comunidade são os artistas. Quando estamos juntos somos a comunidade. Mas dentro cabe cada personalidade, cada individualidade, que faze as suas coisas”, acrescentou.

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