Rodrigo Matos mora na mesma rua do café “La Belle Équipe”, um dos alvos dos ataques de ontem à noite em Paris, e ainda está em choque face ao que aconteceu, a precisamente 150 metros de sua casa.
Rodrigo e Zoe Greenberg estavam a ver um jogo de futebol e a jantar no seu apartamento envidraçado do quarto andar, na rue Faidherbe – onde o café, ao fundo, cruza com a rue de Charonne -, quando ouviram um ruído muito forte, ontem à noite.
“Apaguei o som. Não havia nada. Vim à janela quando começou a segunda rajada. Nesse momento percebi imediatamente que eram tiros de semiautomática e a única reação foi apagar todas as luzes, irmos para longe das janelas, porque não sabíamos se eles estavam a vir nesta direção ou não, quem estava a disparar”, descreveu à Lusa o diretor-geral, em Paris, da empresa Ramos Catarino.
Quando a segunda rajada de tiros parou, o jovem foi à janela espreitar e viu “pessoas na rua, paradas, que não estavam bem a ver o que estava a acontecer – não havia o pânico que era de esperar”. Mas, “passados uns três, cinco minutos”, voltou a ouvir rajadas mais longe. Dez minutos depois apareceu o primeiro carro da polícia e um carro dos bombeiros.
“Depois demorou mais vinte minutos até que toda a gente começou a chegar, chegaram mais carros, ouviam-se sirenes. Por volta das dez, começaram a passar as primeiras mensagens na televisão a dizer o que estava a acontecer. Nós pensávamos que era aqui, no 11.º ‘arrondissement’. Depois, as mensagens eram contraditórias, diziam que era no 11.º, no 10.º [bairro], não sabíamos o que estava a acontecer, estávamos obviamente fechados em casa”, descreveu.
Rodrigo Matos começou então a aperceber-se da amplitude do que se estava a passar, “quando começaram a chegar todas as ambulâncias, uma hora mais tarde”, e viu que as autoridades se começaram a mobilizar para outro sítio, “provavelmente para o Bataclan”.
“Vi os primeiros corpos a passarem dentro das ambulâncias – estamos no quarto andar -, conseguimos ver para dentro da ambulância. Começámos a ver os corpos enrolados naquelas mantas prateadas ou douradas e vimos passar uma, duas, no máximo quatro ambulâncias, mas não havia um grande frenesim. Era estranho, as pessoas continuavam a andar na rua, obviamente alarmadas, alguns no telemóvel, mas nada do outro mundo”, continuou.
Agora Rodrigo e Zoé afirmam que não querem dizer que cedem ao terrorismo ou que estão com medo, “porque isso é que é o terrorismo”, mas sublinham que “há doze horas atrás, ou um pouco mais, houve rajadas de metralhadora ao lado” de suas casas.
“É algo que nos choca. E a insegurança – saímos um bocadinho à rua também para respirar um pouco – e percebe-se que as pessoas estão bastante atentas na rua. As pessoas não estão a fazer a sua vida normal”, explicou, ressalvando que, neste bairro, “não se vê muita polícia na rua”.
Em Paris há quase dois anos, o casal também viveu os ataques ao jornal Charlie Hebdo, mas a diferença, sublinha Rodrigo, “é que o Charlie Hebdo foi direcionado a um determinado grupo de pessoas – primeiro os jornalistas e depois um atentado absolutamente racista contra a comunidade judia”.
“Neste momento, foi absolutamente aleatório e foi para pessoas como nós, com 30 anos, profissionais que trabalham durante toda a semana e que vão tomar um copo, vão tomar um café, vão jantar fora (…). Quantas vezes estamos nós ali ao lado a jantar na pizzaria em frente ou a tomar um copo no tailandês, que está exatamente ao lado do restaurante onde foi o atentado, e isso é que é assustador. Só por matar mais pessoas. Essa é a parte mais aterradora”, concluiu.






































