Início Mundo Timor 40 anos/Timor-Leste: Ex-refugiados sentem-se discriminados na Indonésia mas temem regressar

40 anos/Timor-Leste: Ex-refugiados sentem-se discriminados na Indonésia mas temem regressar

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Ex-refugiados timorenses “sentem-se discriminados” na Indonésia, mas temem regressar a Timor-Leste por receio da justiça, da população com desejo de vingança e até de outros ex-refugiados, disse à Lusa uma investigadora indonésia.

Kristia Davina Sianipar, autora da tese “Realojamento dos ex-refugiados timorenses em Nusa Tenggara Oriental”, da Escola de Administração e Políticas Públicas de Jacarta, conta que estes ex-refugiados se sentem discriminados desde 1999, quando fugiram à violência que acompanhou o referendo que ditou a independência de Timor-Leste.

Dados recolhidos pela investigadora dão conta de cerca de 15.000 antigos refugiados – agora cidadãos indonésios – a residir no país, sobretudo em Timor Ocidental, mas os números podem estar errados, porque algumas pessoas “registaram-se em diferentes locais de realojamento” para obterem o dobro das ajudas.

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Segundo a investigadora, o passado ficou marcado por “muitas lutas entre os habitantes locais e os antigos refugiados” na regência de Kupang, por estes estarem a viver nas terras dos autóctones e também devido à falta de convivência, mas entretanto a situação melhorou.

“Eles estão muito amargurados”, porque dizem que o Governo indonésio lhes prometeu “terras e casas” que nunca receberam, contou.

Kristia Davina Sianipar considerou que “a grande diferença” nas condições de vida dos ex-refugiados em relação aos habitantes locais é precisamente a posse da terra e a segurança que daí advém.

As casas de madeira em que vivem a maioria dos realojados não diferem da maior parte das existentes na região e as precárias condições de trabalho ou a falta dele são problemas comuns numa das províncias mais pobres da Indonésia, realçou.

No ano passado, ainda havia pessoas a viver nos campos de refugiados, alertou, realçando que, pelo menos, ali têm água e eletricidade, algo inexistente em muitas habitações da região.

A pesquisadora acrescentou que “as imensas ajudas” que os ex-refugiados receberam das agências internacionais e do Governo durante anos “causaram alguma inveja entre os locais”.

“Um dos medos entre os locais, especialmente em Kupang, é que, como existem tantos ex-refugiados, eles podem fazer uma coligação e eleger pessoas”, referiu, salientando, contudo, que também “há muitos conflitos entre os antigos refugiados”.

O Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) informou ter ajudado a regressar 220 mil dos quase 250 mil que fugiram do país.

Uma viagem que era para ser de três dias a uma semana acabou em 15 anos, e alguns dos antigos combatentes confessaram mesmo a Kristia que nunca teriam abandonado Timor-Leste se o Governo lhes tivesse dito que a sua partida significaria deixarem de lutar pela continuidade da integração do pequeno território na Indonésia.

“Eles sacrificaram muitas coisas para lutar pela Indonésia, fugir de Timor-Leste e viver em campos de refugiados. Seria muito difícil para eles dizerem que estavam errados. Nunca os ouvi dizer isso”, respondeu.

Apesar da mágoa e o desejo de justiça pelas vítimas do conflito, “o sentimento de medo é maior” quando questionados sobre um possível regresso, relatou.

Muitos temem ser chamados à justiça timorense, a eventual perseguição da população com sede de vingança e ainda os ex-refugiados que faziam parte das milícias e que “têm interesse em manter o seu povo junto deles”, como “uma espécie de proteção”, adiantou.

De acordo com os relatos ouvidos pela investigadora, muitos sonham em regressar logo que os seus filhos terminem a sua formação na Indonésia, mas tal não é encarado como muita certeza.

Afinal, alguns têm boas condições de vida, arrendando quartos e trabalhando como “funcionários públicos, professores e polícias”, e todos rejeitam dizer que vivem em condições muito precárias e que a opção pela Indonésia “foi uma escolha errada, porque querem ter o seu orgulho”.

Na sequência do atribulado processo da descolonização portuguesa em 1974, o território entrou num conflito interno que levou à ocupação indonésia no ano seguinte e que viria a durar 25 anos.

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